É Rodeio

Um idealista que sonha com mudanças no rodeio brasileiro

26/04/2013

 

Aos 42 anos de idade, 26 dos quais dedicados ao rodeio, o empresário Jow Amaral, proprietário da TV Jow é uma das poucas pessoas que ainda acreditam e trabalham por mudanças profundas no rodeio brasileiro. O que Jow e outros que pensam como ele querem é que o rodeio passe a ser tratado, pelos organismos governamentais, como esporte de verdade. A lei existe, mas não é respeitada. Nem mesmo pelo governo. O motivo, segundo a opinião dele: falta de união dos profissionais. A desunião decorre de uma série de questões e é alimentada pela inoperância de entidades e instituições legalmente constituídas para defender o rodeio, mas que, no entanto, também não funcionam em benefícios coletivos.

Além de cuidar dos interesses da sua empresa, função que divide com a esposa Edenise Neuber, Jow Amaral é também presidente da PRC (Profissional Rodeio Completo), uma organização nova no Brasil, que chegou com a proposta de promover a aglutinação de forças entre os profissionais do rodeio e, claro, promover o fortalecimento do segmento. A PRC funciona em sintonia com a PRCA (Profissional Rodeio Completo Associados). É através dessa associação, que vem conseguindo a adesão de um número cada vez maior de profissionais do rodeio, que Jow aposta em mudanças. “Se todos os profissionais do rodeio brasileiro se tornarem um, através de uma associação, seremos grandes e fortes, politicamente”, aposta ele. A eleição da primeira diretoria da entidade aconteceu recentemente, durante Congresso em Guaíra (PR) e a intenção é levar os frutos dessa entidade ao maior número possível de profissionais do rodeio.

Respeitado pela conduta pessoal e profissional irrepreensível, Jow Amaral viu o rodeio se transformar desde a época em que decidiu sobreviver desse esporte, mais de duas décadas e meia atrás. Ele começou como competidor em cavalos e depois de um grave acidente, passou a competir em touros. Montou em muitos rodeios de grande porte e ao lado de grandes profissionais, tais como Mozart Junior, João Lobão, Natanael Martins, Ozias Martins, Irineu de Carvalho (Bal) Valdecir de Barreto (Galdério), Jair Honório de Oliveira, Zé Mariano, Wilson Martins de Araújo (Batata) e outros. Em 1994, resolveu abandonar as montarias para ser locutor de rodeios, profissão em que se manteve até 2005. Deixou de narrar por não concordar com a permanência do locutor dentro da arena. “Atrapalha o espetáculo e fica ridículo”, afirma. Há oito anos Jow Amaral é comentarista de rodeio. Em entrevista exclusiva à Revista É Rodeio, ele contou que pretende ver concretizadas as mudanças que sonha para o rodeio brasileiro. “Se eu não conseguir ver, os meus filhos e os filhos dos meus colegas que hoje lutam pela mesma causa, certamente as verão”. Seguir, a íntegra da entrevista com este cowboy sonhador:

 

É RODEIOVocê afirma que o rodeio precisa mudar em alguns aspectos. Quais seriam essas mudanças e de que forma elas podem ocorrer?

JOW AMARAL – Essa ideia de ver o rodeio reconhecido e tratado como uma coisa importante brotou no meu coração já há muito tempo. Eu tenho visto outros colegas investirem em ideias para melhorar e fortalecer o rodeio, mas nós não temos ainda um resultado que seja coletivo da nossa classe. Nós temos no Brasil e até fora do país, algumas experiências de resultados direcionados, ou seja, para algumas pessoas. Eu acredito que para sermos felizes na nossa comunidade não podemos ter todos os nossos vizinhos tristes, porque senão nós vamos nos entristecer também. Para a gente ter uma viga saborosa, sair na sua calçada e acenar para o seu vizinho e cumprimentar em voz alta, é preciso que todos estejam bem. Então, no rodeio nós precisamos disso também, isto é, a coletividade, o benefício atingir a todos.

 

É RODEIO- Então, o que precisa mudar de fato?

JOW AMARAL – Essa mudança, que já foi proposto por muitos e é a proposta nossa da PRC, precisa passar primeiramente pela mente de cada profissional envolvido no rodeio. Outra necessidade é nós olharmos para dentro e vermos o que somos realmente, chegarmos na frente do espelho e dizer: eu sou isto. Ou seja, precisamos saber quantos somos. Quantos profissionais do rodeio existem no Brasil? Nós não sabemos. Essa resenha da nossa realidade precisa ser construída e este é o alvo da PRC, isto é, construir esse mapa e dizer quantos somos e que poder nos temos.

 

É RODEIO- Nenhuma entidade possui esses números?

JOW AMARAL – Não. Não existe essa informação oficial. O que existe são “chutes” desse ou daquele número de profissionais e de festas pelo país, mesmo porque não existia uma associação no Brasil em que você pudesse se associar com plena liberdade de participar as assembleias e ter esclarecidos os balanços e prestações de contas. A PRC veio exatamente para isto, visando trazer essa clareza para dentro da classe. A nossa instituição de classe é a PRCA, onde teremos os profissionais do rodeio associados e com um único objetivo. E quanto falo rodeio, refiro-me a todas as modalidades, em que todos os profissionais precisam estar usufruindo dos mesmos benefícios e sendo amparados pelos mesmos direitos.

 

É RODEIO- E há direitos legais constituídos por lei?

JOW AMARAL – Sim, claro que há. Nós temos direitos garantidos através da lei que regulamenta o rodeio como esporte. O Ministério do Esporte e instituições governamentais que cuidam do setor esportivo, têm o dever de olhar o rodeio também como uma modalidade esportiva. Isto não acontece.

 

É RODEIO- E de quem é a culpa, neste caso?

JOW AMARAL – Muitos representantes do nosso rodeio pressionam os políticos, mas no intuito de receber uma verba para determinado evento. E o político, às vezes, destina uma verba para os projetos de sua base eleitoral, mas na maioria dos casos são verbas de gabinete e não verbas do Ministério do Esporte, porque esse órgão, para liberar, precisa receber projetos, saber quem é a instituição que receberá os recursos para que o dinheiro se destina e, além disso, deve haver prestação de contas, esclarecer os gastos. Até agora nós não tínhamos uma entidade que pudesse participar desse processo, porque todo o empenho feito até então foi para benefícios particulares e, obviamente, o governo, dentro das suas atribuições, não vai destinar verbas públicas para esses interesses. Se isto acontece, é ilegal. A PRCA, que tem condições de receber esses recursos públicos, é uma instituição que não trabalha na ilegalidade, porque somos uma entidade aberta e tudo o que os governos municipais, estaduais e federal destinar à PRCA terá sua aplicação esclarecida, inclusive através das nossas assembleias e na imprensa.  Então, entendo que a mudança no rodeio deve começar por aí,constituir um representante legal e exigir que o rodeio seja tratado como esporte, conforme está na lei.

 

É RODEIOE as federações estaduais e confederação do rodeio, não atuam?

JOW AMARAL – Eu não posso falar com autoridade sobre o trabalho dessas entidades. O que eu posso dizer é que eu nunca fui convidado para participar de uma reunião, uma eleição ou uma assembleia dessas entidades. E eu não conheço ninguém que tenha sido convidado. O que eu posso afirmar é que nós, do rodeio, não temos um representante legal. Existem algumas instituições que se dizem representantes, porém nunca se viu numa revista ou num jornal a convocação para uma assembleia. Quem são os presidentes? Quem são os vice-presidentes, tesoureiros, secretários? Ninguém sabe. Essas coisas não são claras e por isto a nossa categoria deixa de ser beneficiada. Acredito que com a PRCA trazendo transparência, nós teremos credibilidade no Ministério do Esporte para receber as subvenções necessárias ao rodeio. O que nós queremos é que todos os profissionais sejam beneficiados e, para isto, pedimos para que eles nos procurem, façam a sua adesão à PRC e à PRCA ajudem essas instituições a serem realmente fortes e com representatividade política.

 

É RODEIOJá existe alguma ação prática para se chegar nesse objetivo?

JOW AMARAL – Estamos fazendo um trabalho de divulgação do projeto através dos canais de comunicação do rodeio, parcerias através do site oficial da PRC (www.cowboyprc.com ), através dos eventos da PRC, assembleias e congressos. Estamos definindo também uma agenda de encontros regionais, por estado, para levar a visão clara e, principalmente, ouvir opiniões das pessoas do segmento e verificar as necessidades dos profissionais. Nosso alvo, enquanto entidade, é se ajustar dentro da necessidade dos profissionais do rodeio no Brasil.

 

É RODEIOMudando um pouco o foco da coversa, como tem sido até agora a sua carreira no rodeio? Já faz muito tempo?

JOW AMARAL – Neste ano estou completando 26 anos de trabalho no rodeio. Até os 16 anos de idade eu não sabia o que era rodeio. Só ouvia falar. Uma das raridades que acontecia naquela época era uma emissora de TV, se não me engano a Bandeirantes, estava transmitindo um dia de rodeio, ao vivo, na cidade de Cascavel (PR). Eu estava lá a passeio e assisti a transmissão na casa de um amigo. Fiquei entusiasmado e na mesma hora fui ao parque do peão ver pessoalmente as montarias. Ocorre que na próxima cidade que eu fui, que estava tendo o rodeio, montei pela primeira vez, na modalidade de cavalo. Depois participei de outras modalidades (buldog e laço). Um acidente grave, no ano de 1986 me fez ficar três anos na fisioterapia. Voltei para o rodeio e comecei a montar em touros. Em muitos rodeios eu montei nas duas modalidades. No ano de 1992, em Foz do Iguaçu (PR) cheguei a ganhar dois prêmios num único rodeio. Na época isto já era uma raridade.

É RODEIOE como se deu a sua transformação de competidor para narrador?

JOW AMARAL – Foi na época em que estava em tratamento, por causa do acidente. Na verdade, eu comecei fazendo propaganda de rua. Na companhia que eu montava, no Mato Grosso, tinha um fusca adaptado com um alto-falante e na cidade de Paranaíta me escalaram para fazer a propaganda do rodeio, nas ruas da cidade. Eu tinha tanta vergonha de falar no microfone que eu ficava no banco de trás, escondido. Na propaganda eu simulava uma montaria para o povo se entusiasmar e ir para o rodeio. Depois de mais alguns rodeios eu já estava narrando as montarias amadoras, mas nessa época continuava montando.

 

É RODEIOE a carreira como narrador profissional?

JOW AMARAL – Depois disso, ainda em tratamento médico, fui trabalhar em rádio, através de um amigo que me deu a oportunidade. Fazia um programa no domingo de madrugada, mas foi ali que eu consegui ampliar mais o conhecimento na comunicação. Foi nesta época também que percebi a impossibilidade de continuar montando e decidi investir na carreira de locutor. As sequelas daquele acidente eu sinto até hoje, com apenas 30% de força no braço esquerdo. Em 1994 eu recebi um dos convites mais importantes da minha carreira, que era se tornar narrador de uma das maiores companhias de rodeio do Mato Grosso. Meu primeiro rodeio profissional foi na cidade de Sinop. Naquele evento eu narrei durante onze anos. Eu também fui o primeiro comentarista daquele rodeio, em 2011.

 

É RODEIOComo narrador, você foi um profissional realizado?

JOW AMARAL – No primeiro ano foi uma explosão. Eu até fiquei assustado porque não esperava que seria tão rápido. No ano de 1995 teve o primeiro encontro de profissionais no Mato Grosso. Foi o Encontro dos Campeões, promovido pelos empresários daquela região. Tinha narradores de todas as regiões do Brasil e eram classificados naquela época o melhor touro, melhor cavalo, melhor árbitro e o narrador que mais se destacasse em todos os dias do rodeio narrava também a final. Eu tive a benção de ser chamado para narrar a final e, portanto, ganhei o título de melhor locutor do ano. Ali explodiu minha carreira. Em 1999 recebi o primeiro convite para Barretos (SP), mas na época, por conta de muitos compromissos, não pude comparecer. Fui narrar em Barretos nos anos de 2001 e 2002.

 

É RODEIOO que motivou você deixar de ser narrador?

JOW AMARAL – Foram as mudanças, que eu não achei legal. Não acho que é necessário o narrador ficar correndo pra lá e pra cá, subindo em cerca e, muitas vezes, até correndo de animal dentro da arena. Preferi mudar. Eu sempre tive a visão, quando narrador, de falar detalhes da montaria, valorizar o competidor, o touro. A entrada dos locutores dentro das arenas foi o grande desastre do rodeio, mas estou falando do rodeio como competição. Então, quando surgiu a figura do comentarista de rodeio, eu percebi que iria me dar melhor nessa função e resolvi trocar. Ali estava o meu foco e foi dito e feito, porque eu tinha a vantagem de ter sido competidor e narrador, de conhecer o detalhe de comunicar no rodeio, de saber quando o peão está fazendo força ou quando usa a técnica, ou se a montaria foi limpa ou complicada.

 

É RODEIOVocê é um profissional que sonha com todas essas mudanças no rodeio. Você acredita que isto pode acontecer logo ou não há essa expectativa?

JOW AMARAL – Primeira questão: eu pretendo ter filhos. Eu sei que isto não tem nada a ver com o assunto, mas eu digo isto porque, se eu não colher o fruto desse trabalho que estamos fazendo, espero que pelo menos meus filhos colham esses frutos. Mais de cinquenta anos atrás foi formado um grupo de pessoas chamado “Os Independentes”, que criaram uma festa do peão (Barretos) que se tornou uma referência. Hoje aqueles homens, os fundadores, não montam mais em nada, mas os filhos desses estão desfrutando do trabalho que iniciaram. Então, hoje, se eu não conseguir ver todas as mudanças que sonho, os meus filhos e os filhos dos meus colegas que hoje lutam pela mesma causa, certamente as verão. Se formos bem sucedidos, a próxima geração poderá ter oportunidades muito melhores.  Talvez possa ser um sonho muito louco, mas os homens que construíram as melhores máquinas, as tecnologias, os grandes feitos no mundo, eram sonhadores taxados como loucos. Se for assim, eu sou um louco, mas por uma mudança para o bem.

 

FRASES

“Muitos companheiros nossos lutaram muito pela lei, mas ela não funciona. Precisamos mudar isto”
 
“Se todos os profissionais do rodeio brasileiro se tornarem um, através de uma associação, seremos grandes e fortes”

 

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