É Rodeio

Rodrigo Adorno diz que o rodeio precisa inovar em muitos aspectos

06/05/2013

O rodeio não pode ser apenas montarias, narração e fogos. Essa é a essência, mas as pessoas que vão às festas querem algo mais. Tem que ter organização, sincronismo e charme. Muitos organizadores de festas, sejam elas pequenas, médias e grandes – o tamanho não importa – já descobriram que o rodeio-show precisa ir além do embate entre homem e animal e, principalmente, que a preocupação com a plástica da festa não pode começar no portão de entrada e terminar nos camarotes:  deve “invadir” a arena, onde tudo acontece.  E é nesse contexto que, nos últimos anos, surgiu um novo profissional de rodeio: o produtor de arena. Ainda são poucos deles no Brasil, mas alguns já começam a se destacar em nível nacional.

O estado de Goiás é um dos pioneiros no trabalho de produção de arena e é de lá que surge um dos principais nomes: Rodrigo Adorno. Esse goiano de 30 anos, está há seis anos trabalhando no rodeio. O tempo é relativamente curto, mas a experiência desse profissional o tem credenciado para trabalhar nas principais festas não apenas no seu estado de origem, mas também em outras regiões do Brasil. Foi em Santa Catarina, durante o rodeio de Camboriú, que ele falou à Revista É Rodeio sobre a sua profissão e a visão que têm do rodeio brasileiro, o que prejudica esse segmento e o que pode ser feito para inovar cada dia mais.

Rodrigo começou no rodeio em 2007, depois que recebeu uma oportunidade do empresário Valdomiro Polizelli (organizador do rodeio de Jaguariúna/SP) para ajudar na realização do Goiânia Rodeio Fest, realizado em agosto daquele ano. A oportunidade surgiu pela insistência. “Eu queria trabalhar no rodeio e tive que lutar para isto”, conta. Mas, na época, ele nem imaginava que função poderia desempenhar no rodeio. Primeiro foi escalado para colaborar na divulgação da festa, viajava em trio elétrico pelas cidades da região e dormia no caminhão de som. Não era com aquilo que Rodrigo sonhava. Ele queria mesmo era estar no meio dos profissionais do rodeio, nos fundos dos bretes, na arena. Dias antes do evento ele conheceu Zé Cowboy, um dos maiores profissionais de logística de rodeio de todos os tempos. “Com autorização do Valdomiro, eu colei nele”. Foi com Zé Cowboy que Adorno aprendeu os primeiros passos de como produzir uma abertura de rodeio, com sincronismo. “Eu fiquei só duas semanas com ele e só absorvendo. Aprendi tudo o que eu sei, mas é claro que com o tempo consegui aperfeiçoar”. Por indicação de Zé Cowboy, já no primeiro trabalho depois do Goiânia Rodeio Fest, um desafio: produzir de um DVD ao vivo para Gleydson Rodrigues. Foi um sucesso. Pouco depois, Rodrigo Adorno já trabalhava com o empresário Johnny Palestino e, nem precisava dizer que a partir de então ele passou a ganhar mais respeito no rodeio, a ponto de ser, há quatro anos, um dos produtores de palco do Caldas Country Festival, um dos maiores eventos country do Brasil. E lá se vão seis anos de estrada. A entrevista segue na integra:

 

É RODEIO – Como você conheceu o Valdomiro Polizelli?

RODRIGO ADORNO – É uma história longa, mas vamos resumir. Em 2007, tinha acabado de sair da faculdade e estava em um bar com os amigos quando ouvi alguém comentar que o Valdomiro (Polizelli), realizaria um evento grande em minha cidade, Goiânia (GO). Vi ali uma oportunidade de entrar no rodeio. Em 2004 eu tinha assistido o rodeio de Jaguariúna. Já no dia seguinte, fiz contato com um amigo influente de Goiânia, que me colocou em contato com Valdomiro. Ele me atendeu e eu falei que queria participar da equipe, mas de início ele não deu muita atenção. Eu não tinha a mínima noção do que era o rodeio, mas eu queria estar junto. O rodeio estava marcado para agosto e em junho eu liguei novamente para ele e pedi uma oportunidade. O Valdomiro pediu para que eu o procurasse no dia seguinte, pela manhã, no escritório que ele já tinha montado em Goiânia. Ele marcou comigo às oito horas, mas às sete horas eu já estava lá... Como era um evento muito grande, uma coisa inédita na cidade, tinha empresários de duplas, fornecedor de outdoor e de tudo quanto é coisa para oferecer a ele. E os caras foram entrando e eu fiquei ali sentado, esperando. Fui conseguir falar com ele as 10 horas da noite. O Valdomiro saiu da sala e viu que eu ainda estava lá, esperando. Foi um espanto, mas valeu a pena porque ele me mandou voltar no dia seguinte para trabalhar.

 

É RODEIO – E que trabalho você deveria fazer?

RODRIGO ADORNO - Foi uma espécie de guia da equipe que divulgava o evento. Em resumo, eu ajudava a fazer o marketing da festa, andava com o trio elétrico, dormia dentro do caminhão, colava cartaz e outras coisas desse tipo. Foram dois meses de trabalho para fazer o Goiânia Rodeio Fest, sem nenhum centavo de salário. Mas eu recebi o que eu queria, que era a oportunidade. E aproveitei bem. De todas as pessoas que conheci naqueles dois meses de trabalho, exceto os da equipe do Valdomiro, ninguém trabalha no rodeio hoje.

 

É RODEIO – E como você passou do marketing para a produção de arena?

RODRIGO ADORNO - Durante o rodeio, conheci o Zé Cowboy. Na verdade, dias antes de começar o rodeio, eu pedi para trabalhar com ele, porque na verdade eu queria aprender alguma coisa que me mantivesse no rodeio. Algo para o futuro. E o Valdomiro autorizou. Fiquei só duas semanas com o Zé Cowboy, só absorvendo. Eu aprendi tudo o que eu sei, mas é claro que com o tempo consegui aperfeiçoar. O primeiro trabalho depois do Goiânia Rodeio Fest foi a produção de um DVD ao vivo para Gleydson Rodrigues. Pouco depois fui trabalhar com o empresário Johnny Palestino. Isto já tem seis anos.

 

É RODEIO – Você começou em Goiás, mas agora já vem fazendo rodeios em outros estados. O que o seu trabalho apresenta de novidade?

RODRIGO ADORNO – O que é interessante é que até então, seis a sete anos atrás, a produção de rodeio era inexistente. A assessoria que era muito forte. Então, eu conheci a produção de rodeio apenas com fogos, desenhos na arena e não tinha essas outras coisas. Quando eu comecei eu logo percebi que se podia colocar mais novidades ali dentro da arena. Foi quando vieram cortina de led, túnel inflável, lazer de várias cores e outras coias. E isto virou febre. Estamos inovando.

 

É RODEIO – Você também ajuda a produzir o Caldas Country Festival?

RODRIGO ADORNO – É verdade. Nós participamos lá, junto com o Cuiabano Lima (locutor de rodeio e apresentador do Festival). Na verdade eu faço a produção de palco, sou um dos vários produtores que trabalham lá. O Festival tem sete anos e faz quatro anos que eu trabalho lá. É um evento muito grande, maior festival sertanejo do mundo e que, claro, dá nome para qualquer profissional.

 

É RODEIO – No seu ponto de vista, em termos de plástica, de visual, falta alguma coisa para o rodeio?

RODRIGO ADORNO - Falta muita coisa para o rodeio. Muitas vezes eu observo que na arena a produção está em cortina de led e o show musical está em painéis gigantes de led, de alta definição, usam máquinas de grande tecnologia e alta potência... Para os shows o pessoal usam estruturas modernas, mas para o rodeio falta investimento. Então, sem dinheiro não tem como você colocar brilho no rodeio. É o contrário do que acontece nos rodeios dos Estados Unidos. Vá lá ao rodeio de Huston, de Las Vegas e outros para ver. É totalmente diferente, há muita produção, injeta-se muito dinheiro.

 

É RODEIO – Então você acha que o show business está tomando o espaço do rodeio?

RODRIGO ADORNO – Infelizmente. O dinheiro foi desviado e até o público foi desviado. Eu cresci vendo crianças querendo ser o Asa Branca (locutor de rodeio). Hoje as crianças crescem querendo ser o Luan Santana. A gente não tem bons locutores na nova safra, não existe isto.

 

É RODEIO – Você defende, então, festa de peão sem shows musicais?

RODRIGO ADORNO – Eu digo a você que o show business atrapalha o rodeio, e muito. Todo mundo pensa que hoje não se realiza rodeio sem show, porque dizem que não dá público. Isto é mentira. Você observa por Rio Verde (GO), que é o maior rodeio do estado de Goiás, não tem show. Então, para se fazer um bom rodeio não é necessário ter show. Nós, do rodeio, temos que nos dar mais valor. Não podemos chegar à comissão e dizer traz essa ou aquela dupla... Temos que priorizar o rodeio.

 

É RODEIO – E tem também a questão da remuneração... Artista musical cobra caro e recebe adiantado, enquanto que em algumas situações é comum o profissional do rodeio trabalhar e não receber quando a festa dá prejuízo aos organizadores. O que você acha disso?

RODRIGO ADORNO – Acho que isto vem da tal cultura do fiado, fora a desunião dos profissionais do rodeio. Tem que se organizar, cobrar, exigir direitos.

 

É RODEIO – Como resolver isto?

RODRIGO ADORNO – Vejo que existe uma infidelidade no rodeio, uma concorrência desleal. No mundo artístico musical, não importa se o show é cinco mil ou trezentos mil. A forma de pagamento é a mesa e não existe leilão, ou seja, se esse não quer o outro faz por menos. Agora, no rodeio, o que acontece e eu vejo isto principalmente no estado de Goiás: o cara faz um rodeio barato, vem outro e faz mais barato ainda e chega um terceiro e faz quase de graça. Nesse caso, sobra para os profissionais do rodeiro, que vão receber metade do cachê ou muitas vezes não recebem nada. O que acontece é que o cara faz um rodeio quase de graça e promove o show business e, aí o que ele faz: pega o dinheiro da primeira noite para pagar o segundo e se na segunda noite não der bilheteria ele tira o dinheiro do rodeio para pagar o show e quando acaba o rodeio o cara chega e fala que não tem dinheiro e dá um cheque para 60 dias. Então, eu queria dizer que isto tem concerto, mas não vejo solução porque falta união e cumplicidade dos profissionais do rodeio. Tem que acabar com esse negócio de dar rasteira no colega para estar numa festa. O rodeio tem que ser mais família. 

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