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RODEIO X SHOWS: quem vale mais?

18/08/2013

Nos últimos meses, respeitados profissionais do rodeio brasileiro têm usado as redes sociais, na internet, para propagandear um descontentamento que já é dividido entre grande parte das pessoas envolvidas no rodeio, profissionais com muito tempo de carreira e, alguns deles, conhecidos nacionalmente. Todos concordam que, nas últimas décadas, o rodeio evoluiu muito no Brasil, ganhou em tecnologia, modernidade e profissionalismo. Entretanto, as opiniões divergem quando o assunto é a valorização dos profissionais.

Pouquíssimos locutores conseguem manter um cachê mais elevado. Apenas um terço das festas de médio e grande porte oferece premiação que ultrapassa os dez mil reais. Os profissionais reclamam que as condições de trabalho, na maioria dos casos, não são adequadas e, uma das coisas que mais intrigam: na grande maioria das festas a prioridade é para os shows artísticos, que têm horários para começar e terminar.

E essa prioridade começa já na divulgação do evento. São poucas as festas que valorizam os profissionais do rodeio nos cartazes, faixas, outdoor, sites e outros meios de comunicação. Invariavelmente, como faz, por exemplo, a Festa do Peão de Barretos, a mídia é focalizada quase que exclusivamente na programação musical. Nesse aspecto, os profissionais do rodeio estão ficando em segundo plano e, ás vezes, em nenhum plano, quando, na opinião da maioria, deveria ser o contrário. 

 

O RODEIO É UMA SANFONA

Para Gleydson Rodrigues, que é um dos narradores de rodeio mais conhecidos do Brasil, “o rodeio é a sanfona da festa”. Recentemente, ele publicou um desabafo na internet. Disse que chegou à conclusão de que os profissionais do rodeio estão “sem moral”. Ocorre que, segundo Gleydson, existe sempre uma pressão muito forte para acelerar o trabalho e entregar logo a arena para o show artístico que vem na sequência. “Começando os trabalhos, invariavelmente, aparece um baterista da dupla que vai cantar em seguida, junto com seu técnico de som, e começa um, dois, um dois, teste, som... A gente cansa de pedir ao pessoal para não passar o som na hora dos nossos trabalhos, mas é tudo em vão”, protesta. Gleydson observa que os cantores fazem uma série de exigências aos contratantes e, para ele, “está na hora de os profissionais do rodeio colocar algumas exigências e exigir mais respeito”.

Mas Gleydson não é o único a reclamar. Dias atrás o locutor Piracicabano, outro que tem reconhecimento nacional, se manifestou em seu blog, na internet, sobre essa questão. Com o título “cuidado com os picaretas do mundo do rodeio”, Pira lembrou que “o cantor, para fazer uma apresentação de uma hora, recebe antes de subir no palco e tem um camarim cheio de frutas, água e bebidas à vontade”. E indagou: “E nós, o que temos?”. Segundo o locutor, os profissionais do rodeio são “simplesmente escorraçados em pequenos lugares e não têm água, banheiro e, às vezes, não tem nem sequer iluminação”. Na opinião de Piracicabano, os profissionais do rodeio têm que ser mais respeitados, pois, segundo ele, “sem eles não haveria o grande espetáculo da festa do peão, que é o rodeio”. E o locutor encerra o texto afirmando que espera que com “esse pequeno desabafo muitos queiram aderir a esta campanha para que um dia nós profissionais do rodeio sejamos tratados como devemos ser e não sermos mais humilhados”.

 

QUEM PECISA DE QUEM?

Cuiabano Lima é locutor de rodeio e apresentação de shows musicais. Foi pela internet que ele também se manifestou sobre o polêmico assunto envolvendo rodeio e shows nos eventos pelo Brasil afora. Cuiabano observa que “o rodeio hoje, na maioria dos eventos, se vê refém de bilheterias de artistas que levam o público às feiras, exposições e festas do peão”. Os artistas que são ídolos, arrastam multidões para suas apresentações. Então, o que tem atraído o público para o rodeio? “O esporte em si ou os shows?”, indaga o locutor, que tem visto com tristeza o rodeio ficando em segundo plano. “Vivo do rodeio e sou criado neste universo e penso que isso e lamentável”, afirma.

Cuiabano opina que a saída seria mudar o formato do rodeio e valorizar mais os artistas do esporte, ou seja, os competidores. “Dar uma mídia significativa para eles e transformá-los em ídolos”. Nos Estados Unidos já se faz isto. Os peões que disputam o campeonato internacional da PBR são tratados como artistas, eles dão autógrafos antes e depois dos eventos e são idolatrados pelo público.
A opinião de Cuiabano Lima é compartilhada com o comentarista de rodeio, Vinicius Vulpini. Ele é das antigas e acompanha o rodeio desde quando os cantores se apresentavam nas festas em cima de uma carreta de trator. Hoje é tudo diferente e o privilégio impera. “O showbusiness cresceu e é mérito deles, mas não se deve esquecer que isto se deu graças ao público sertanejo, o público do rodeio. Então, tem que valorizar mais esse esporte, valorizar os profissionais com um cachê mais justo e uma premiação mais digna aos competidores”, salienta.

 

O VERDADEIRO SHOW É O DAS ARENAS

Esta é a opinião do comentarista Thiago Arantes. Ele é um profissional que presta o seu trabalho em grandes rodeios por todo o Brasil e, por onde passa, defende a causa da valorização do esporte. “O público do rodeio, seja ele profissional ou fã do esporte, deve dar mais ênfase ao rodeio”, afirma. Thiago disse que observa, por onde passa, muitos locutores “encherem a bola de quem vai cantar na noite, tocam a música deles, enchem de elogios”, e ele se pergunta:  “os cantores fazem o mesmo pelo locutor na hora do show?”. Certamente não, com raras exceções.

Thiago Arantes observa também que, na maioria, o cartaz do rodeio só divulga artistas de palco. “Penso que criamos uma cobra para nos picar”, anfineta ele. O comentarista conta que nas entrevistas que concede as emissoras de rádio ou televisão, não fala de shows artísticos: \"o show vai ser dos montadores na arena\", diz. “É assim que tem que ser, e não importa se vai ser difícil mudar a atual conjuntura, é um trabalho de formiguinha e minha parte estou fazendo”, garante.

 

RIO VERDE DÁ EXEMPLO

 

O problema existe, mas não se pode generalizar. Em muitos eventos pelo Brasil, o rodeio e os profissionais envolvidos no esporte recebem atenção, divulgação e tratamento digno de artistas. Um dos melhores exemplos é a festa de Rio Verde (GO), considerado o melhor rodeio em touros do país. Além de dar amplo destaque ao rodeio no cartaz da festa, a comissão organizadora preparou neste ano uma tarde de autógrafos. Não para os cantores, mas para os profissionais do rodeio. Estiveram lá nomes como o locutor Piracicabano, ganhador do Arena de Ouro em 2007, 17 anos de Rio Verde e 16 anos de Barretos, e o também locutor Almir Cambra, tetracampeão do Arena de Ouro e ganhador de mais 32 títulos em 19 anos de carreira. Também estavam os competidores Rogério ferreira (campeão em Barretos em 1998, bicampeão de Rio Verde e tetracampeão de Fernandópolis), Tiago Diogo (campeão em Barretos em 2010) e Ailton Amorim (campeão Top Team Cup em 2012).

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